Tecnologia e território: integrantes do CPA publicam resenhas na Revista Eco-Pós
Pensar criticamente as tecnologias e suas relações com os territórios tem atravessado diferentes momentos da atuação do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA). Esse debate ganha agora duas novas contribuições de integrantes do CPA publicadas na Revista Eco-Pós, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Jéssica Botelho e Hemanuel Veras assinam resenhas que aproximam discussões sobre capitalismo de plataforma, colonialismo digital, racismo e crise socioambiental das questões que mobilizam pesquisas e experiências desenvolvidas na Amazônia. Os trabalhos integram o dossiê Materialidades da Inteligência Artificial: implicações socioambientais e perspectivas ecológicas e partem de obras distintas para discutir como as tecnologias são produzidas dentro de contextos históricos e relações de poder que precisam ser considerados quando pensamos seus impactos e possibilidades de apropriação.
Na resenha “Entre o pessimismo e possibilidades de futuro: aproximações entre o território amazônico e a terra arrasada de Jonathan Crary”, Jéssica Botelho parte do livro Terra arrasada: Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista, de Jonathan Crary, para aproximar as críticas do autor às tecnologias digitais e ao capitalismo das contradições vividas na Amazônia. A reflexão considera um território historicamente atravessado pela exploração da sua sociobiodiversidade e pelas disputas em torno dos modelos de desenvolvimento, observando como as infraestruturas e economias digitais também passam a integrar essas dinâmicas. A partir da crítica de Crary ao empobrecimento da percepção, à desintegração dos laços sociais e aos efeitos ambientais de um sistema orientado pela expansão permanente do consumo, a resenha propõe olhar para as tecnologias considerando as condições materiais que sustentam seu funcionamento e os impactos que produzem sobre diferentes territórios. Diante do colapso ambiental e social discutido pelo autor, Jéssica recupera ainda a importância da imaginação política para pensar possibilidades de futuro que coloquem as necessidades humanas e a vida acima da lógica do mercado, uma provocação especialmente relevante quando esse debate parte da Amazônia.
Nesse sentido, para não perder a esperança diante do cenário de crise civilizatória apresentado pelo autor, talvez seja necessário voltar o olhar para o território —não como espaço romantizado, mas como fonte concreta de soluções, vínculos e possibilidadesde reconstrução do comum frente às múltiplas crises do presente. Nas palavras Santos (2023), “o mundo é grande e tem lugar para todo mundo. O mundo é redondo exatamente para as pessoas não se atropelarem”(Santos, 2023, p. 54).
A discussão sobre apropriação das tecnologias também aparece na resenha “Uma crítica hacker-fanoniana para entender o Colonialismo Digital com Deivison Faustino e Walter Lippold”, de Hemanuel Veras. A partir do livro Colonialismo digital: Por uma crítica hacker-fanoniana, Hemanuel apresenta uma reflexão sobre as relações entre colonialismo, racismo e tecnologias informacionais no capitalismo contemporâneo. Um dos caminhos destacados pela resenha está na retomada de Frantz Fanon para compreender como tecnologias utilizadas dentro de estruturas coloniais também foram apropriadas nas lutas de libertação. Essa reflexão encontra uma experiência amazônica quando Hemanuel aproxima os exemplos históricos discutidos pelos autores, entre eles o uso do rádio na Revolução Argelina, das pesquisas sobre a apropriação das tecnologias de comunicação pelos movimentos indígenas do Alto Rio Negro. A relação ajuda a deslocar o debate para as experiências concretas de povos que utilizam e transformam tecnologias segundo suas necessidades políticas, culturais e territoriais. É uma perspectiva próxima daquela construída pelo CPA ao longo de sua trajetória, quando a organização reconhece que trabalhar com tecnologias disponíveis nos territórios exige compreender seus limites, seus riscos e as possibilidades de reinventar seus usos a partir da cultura e das formas locais de organização.
(…) as tecnologias foram utilizadas pelos colonizadores para dominar e causar sofrimento, mas que a busca pela emancipação coloca essas mesmas tecnologias a seu favor, para dissolver os papéis de colonizador e colonizado. Essa proposta revolucionária vai além da ruptura com a divisão do trabalho no capitalismoe vai na direção do desmantelamento das heranças coloniais.
A publicação das duas resenhas também reforça uma dimensão importante para o CPA, que é aproximar a produção acadêmica dos conhecimentos construídos fora dos espaços formais de pesquisa. Desde suas primeiras experiências, a organização tem buscado estabelecer esse diálogo entendendo movimentos sociais, organizações comunitárias e sujeitos dos territórios como produtores de conhecimento sobre suas próprias realidades. A comunicação popular e o ativismo fazem parte desse processo porque acumulam práticas, leituras e soluções produzidas no enfrentamento cotidiano de problemas concretos. Quando essas experiências encontram a pesquisa acadêmica, ampliam as perguntas que podem ser feitas sobre as tecnologias e ajudam a observar questões que dificilmente aparecem quando os territórios são vistos apenas como lugares onde seus impactos acontecem. Para o CPA, aproximar esses universos significa fortalecer uma circulação de conhecimento capaz de reconhecer a Amazônia também como lugar de elaboração crítica sobre tecnologia e de construção de outros caminhos possíveis.
