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Ciência, tecnologia e sociedade: encontro aproxima pesquisadores para pensar os impactos da inteligência artificial

Encontro realizado em Goiânia reuniu pesquisadores brasileiros e alemães de diferentes áreas e reforçou a importância da cooperação científica para compreender os impactos das tecnologias na sociedade e construir formas mais responsáveis de desenvolvê-las e utilizá-las

Entre os dias 24 e 27 de setembro, pesquisadores do Brasil e da Alemanha estiveram reunidos em Goiânia (GO) para a 16ª edição do Brazilian-German Frontiers of Science and Technology Symposium (BRAGFOST). Promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pela Alexander von Humboldt Foundation, o encontro teve como tema “AI for Good: Global Responsible Innovation and Business Transformation”.

O BRAGFOST é um simpósio binacional e interdisciplinar realizado alternadamente nos dois países. A iniciativa reúne cerca de 60 pesquisadores para discutir novas fronteiras de investigação, aproximar diferentes campos científicos e estimular redes de cooperação entre Brasil e Alemanha. Segundo a CAPES, um dos objetivos do programa é justamente aprofundar conhecimentos internacionais e promover o debate interdisciplinar sobre desafios do conhecimento.

A pesquisadora e coordenadora do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA), Jéssica Botelho, participou da edição de 2026, levando para o encontro perspectivas relacionadas às pesquisas desenvolvidas a partir da Amazônia e de outros territórios brasileiros, especialmente nos campos da integridade da informação, justiça socioambiental e tecnologias digitais. A participação dialoga com uma questão que atravessa as pesquisas e ações desenvolvidas pelo CPA: como pensar tecnologias a partir das pessoas e dos territórios sobre os quais elas produzem efeitos?

Participantes do 16º Bragfost, em Goiânia

Inteligência artificial também é uma questão social

A inteligência artificial já atravessa diferentes dimensões da vida cotidiana, da educação e do trabalho à comunicação, ao acesso à informação e à produção científica. Sua expansão, porém, exige que o debate ultrapasse as possibilidades técnicas das ferramentas. O programa discutiu transparência, segurança, vieses, representatividade dos dados, desinformação, desigualdades geográficas e culturais e os impactos dos grandes modelos de linguagem. Uma das pesquisas apresentadas, por exemplo, discutiu como modelos generativos são treinados com conjuntos de dados que sobrerrepresentam o Norte Global e as dificuldades desses sistemas para representar adequadamente geografias e culturas fora desses centros.

Outro eixo importante foi a necessidade de desenvolver literacias críticas em inteligência artificial. A sessão dedicada à IA generativa, educação, pesquisa e transferência de conhecimento discutiu como essas tecnologias estão alterando processos de aprendizagem, autoria, criatividade, publicação científica e circulação do conhecimento. O ponto de partida foi reconhecer que dados, modelos, interfaces e infraestruturas tecnológicas estão inseridos em relações sociais, instituições e estruturas de poder. Essa perspectiva se aproxima das preocupações que orientam o trabalho do CPA com comunicação popular e integridade da informação: compreender as tecnologias não apenas pelo que elas prometem fazer, mas pelos efeitos que produzem quando chegam às pessoas e aos diferentes territórios.

“Precisamos pesquisar as inteligências artificiais justamente porque elas estão entrando cada vez mais rápido em diferentes áreas da vida. O uso cotidiano dessas ferramentas não pode avançar mais rapidamente do que nossa capacidade de compreender seus impactos. Isso envolve desenvolver métodos de literacia, produzir evidências sobre riscos e benefícios e, principalmente, olhar para diferentes realidades sociais e territoriais. Uma tecnologia que funciona bem em determinado contexto não necessariamente produzirá os mesmos resultados em outro”, afirma Jéssica Botelho.

Da Amazônia ao debate internacional sobre tecnologia

A presença de pesquisas desenvolvidas a partir de diferentes regiões também amplia as perguntas colocadas ao debate tecnológico. Para o CPA, pensar inteligência artificial e tecnologias digitais a partir da Amazônia significa observar territórios marcados por condições específicas de conectividade, circulação da informação, diversidade sociocultural, desigualdades de infraestrutura e relações particulares entre comunicação, meio ambiente e desenvolvimento. Isso também permite tensionar a ideia de que tecnologias produzidas em determinados centros podem ser simplesmente universalizadas. O próprio BRAGFOST trouxe ao debate as desigualdades geográficas e geoculturais presentes nos sistemas de IA e a necessidade de ampliar a diversidade empírica, linguística e cultural considerada no desenvolvimento e na avaliação dessas tecnologias.

A aproximação entre pesquisadores brasileiros e alemães cria, nesse sentido, possibilidades de estudos comparativos entre Norte e Sul Global. Mais do que importar soluções tecnológicas, a cooperação internacional pode colocar diferentes realidades em diálogo e permitir que problemas semelhantes sejam observados a partir de condições sociais, econômicas, ambientais e culturais distintas. “Uma das maiores potências do encontro foi perceber quantas perguntas novas aparecem quando pesquisadores de diferentes áreas e países conseguem conversar com tempo e atenção. A interdisciplinaridade nos ajuda a sair das fronteiras das nossas próprias pesquisas e pensar problemas maiores. Para quem pesquisa comunicação e território, essa troca também abre possibilidades muito interessantes de estudos comparativos entre Norte e Sul Global”, destaca Botelho.

Pesquisar tecnologia para disputar seus futuros

Ao reunir diferentes campos científicos em torno da inteligência artificial, o BRAGFOST também evidencia que discutir tecnologia significa discutir que sociedade queremos construir. Na edição de 2026, as questões centrais estiveram em torno de como fazer com que a IA fortaleça capacidades humanas sem substituir o julgamento das pessoas, como distribuir seus benefícios entre diferentes setores, regiões e comunidades e como alinhar inovação tecnológica à responsabilidade social e à sustentabilidade ambiental.

Para o CPA, esse debate passa necessariamente pela produção de conhecimento crítico e situado. Ou seja, quanto mais tecnologias digitais passam a mediar educação, comunicação, trabalho, informação e produção de conhecimento, maior é a necessidade de investigar seus efeitos e construir formas de apropriação consciente dessas ferramentas. Isso significa formar pessoas capazes de questionar resultados produzidos por sistemas automatizados, reconhecer seus limites, identificar possíveis vieses e decidir quando, como e para quê utilizá-los. Significa também produzir pesquisas a partir de territórios que historicamente aparecem pouco nos bancos de dados e nos centros de desenvolvimento tecnológico.

A ciência tem, nesse processo, a função pública fundamental de produzir evidências que permitam à sociedade fazer escolhas mais informadas sobre as tecnologias que incorpora à vida cotidiana. Para isso, pesquisadores precisam de redes, liberdade de investigação, diversidade de perspectivas e financiamento compatível com o tempo e a complexidade necessários para compreender transformações que já estão em curso.

Sobre o BRAGFOST

O Brazilian-German Frontiers of Science and Technology Symposium é uma iniciativa binacional da CAPES e da Alexander von Humboldt Foundation. O programa reúne pesquisadores do Brasil e da Alemanha para promover intercâmbio interdisciplinar e estimular novas cooperações científicas. A edição de 2026 ocorreu entre 24 e 27 de setembro, em Goiânia, e teve quatro grandes eixos: dados sintéticos e IA confiável; confiabilidade de grandes modelos de linguagem; inteligência artificial para pequenas e médias empresas; e IA generativa aplicada à educação, pesquisa e transferência de conhecimento.

 

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