Bom dia, gente!
Meu nome é Uriel Pinho, eu sou formado em jornalismo pela universidade federal do para. Fiz mestrado em cinema e audiovisual na universidade federal fluminense e atualmente to cursando o doutorado no Departamento de Estudos Romanicos da Duke University onde eu tenho me interessado especialmente por cinema latino-americano e relacoes ecologicas.
Eu to muito feliz e honrado com a possibilidade de estar aqui como provocador dessa edicao do dialogos audiovisuais que tem o titulo de “Cinemas indigenas e afro-diasporicos na pan-amazonia: desafios e possibilidades”
Esse é um titulo com um escopo bem grande ne: pan-amazonia, indigena, afro-diasporico. Cada uma dessas palavras é um universo.
E pra essa conversa de hoje, eu vou fazer menos uma apresentacao expositiva ou uma revisao do que saoessas esses termos ou esses conceitos, e mais um relato de experiencia de como tem sido a minha relacao principalmente com a documentacao de audiovisual em territorios aqui da regiaoAmazonica, enquanto uma pessoa amazonida que compartilha esse pertencimento afro-diasporico e indigena.
Eu vou compartilhar principalmente perguntas pra que a gente possa conversar porque eu tenho a impressao de que as perguntas, mais do que respostas ou conceitos definitivos, servem pra engajar a gente coletivamente com questoes urgentes
Perguntas que dizem respeito a possibilidades que se abrem a partir de ações como essa do CPA e o papel que a digitalizacao, salvaguarda e disponibilizacao de acervos audiovisuais, especialmente de conteúdos que de certo modo podem ser considerados menores (e aqui eu me refiro especificamente aos estudos de cinema) e como esses conteúdos naoso registram dinamicas de territoriosamazonicos como a cidade de manaus mas podem servir como detonadores pra gente questionar e fabular sobre nossas historias, seja no nivel privado, da nossa historia familiar, seja no nivel coletivo, na historia de politicas publicas culturais do estado do amazonas e do Brasil, ate os diversos espacos pendulares entre essas duas instancias: o publico e o privado.
Nesse sentido, eu vou falar brevemente da minha historia com documentacao audiovisual, arquivos e memoria, como uma forma de ilustrar alguns lugares de onde parte o meu olhar, ja que eu venho de uma parte bem especifica da Amazonia e nos somos uma regiao imensa e heterogenea como todos sabemos, e provocar voces a pensar nas propriasrelacoes de voces com esse acervo do coletivo difusao.
Esse aqui era o meu avo, pai da minha mãe, o Manoel Helio da Silva Santos.:
Ele trabalhava na marinha mercante, numa empresa chamada CATA, a Companhia Amazonia textil de aniagem, ali entre as decadas de 50 e 60.
Eu cresci com as historias de que ele viajava de manaus a buenos aires nos navios da CATA.
Eu nao tive muita oportunidade de conversar com ele sobre isso, mas minha mae manteve vivos esses relatos. Inclusive das vindas dele a Manaus. Uma coisa que eu lembro de ela ter dito é que “Manaus era a princesinha dos olhos do meu avo” quando nos encontramos uma foto dele por aqui.
Era essa foto aqui.
Eu posso so imaginar o que deveria ser chegar numa cidade como manaus depois de tanto tempo navegando.
E antes do meu avo, o pai dele, que é esse aqui, o Teodorico Victor dos santos, tambem trabalhava em navios. E vinha constantemente a Manaus:

Foi aqui em Manaus, assim me contaram a minha mae e a minha tia avo, que sao arquivistas desse acervo que é visual e oral, que o meu bisavo recebeu a noticia de que ele tinha um problema cardiaco e que deveria voltar pra Belem, pra onde ele voltou e morreu pouco tempo depois.
Voces percebem que eu to falando aqui de memorias e de um acervo familiar, que tem um importante componente visual, que sao essas fotografias, algo que não é tão comum entre familias como a minha, de pessoas negras, sem cargos politicos ou outros feitos que sao considerados “dignos de registro” pelas pessoas responsaveis por registrar a historia pra posteridade.
Mas é um arquivo que nesse nivel pessoal me traz perguntas que me movimentam
O que significa viver em transito com essa regiao, a Amazonia?
Que tipo de arranjo permitiu que esses homens negros posuissem a estabilidade de um trabalho como a marinha mercante?
O que a historiaeconomica e natural da regiao tem a ver com isso? Ja que a CATA, a empresa que o meu avo trabalhava, era uma empresa que comercializava fibras vejetais pra industriatextil, como a juta, e que entrou em declinio com a chegada dos tecidos sinteticos no Brasil, especialmente na regiao sudeste.
Eu fiz essa digrecao muito pessoal pra falar como a possibilidade de ter acesso a memorias, a memorias orais, mas tambem a memorias visuais tem um papel emocional, social e politicode como a gente se coloca no mundo.
E ai nesse sentido, esse acervo que vai ser digitalizado, inicialmente do coletivo difusao, tem possibilidades imensas nao apenas pra registrar uma historia linear ou oficiosa, mas tambempra dar origem a fabulacoes e pravisualizacao do invisivel. Desse momento da cidade de Manaus, e de organizacoesnaoso como o Coletivo Difusao, mas da TV UFAM, de grupos de teatro da cidade de manaus. Entao existe uma importanciahistorica e social dessas organizacoes, tambem uma importanciaestetica, e outra, que eu acho muito importante tambem, que é no nivel do imprevisivel, do afetivo. E eu espero que muita gente tenha a oportunidade de ver essas imagens e talvez ver pessoas que ama. Ou ver pessoas que odeia. Mas ter a oportunidade de ter esse contato nesse nivel pessoal tambem, praalem das institucionalizacoes.
Aqui eu acho que eu to me ligando um pouco a uma nocao da qual fala o Walter Benjamin, que é a memoriainvoluntaria. Aquela memoria que a gente nao planeja resgatar, que é disparada por algo que a gente nem consegue definir. Um cheiro, uma vista do ceu, e que acessa experiencias que nao foram guardadas no nosso corpo num nivel consciente.
E eu falo disso porque quando a gente fala de arquivos e de acervos, é inevitavel falar sobre a institucionalidade que historicamente produz esses materiais e escolhe o que deve ser preservado ou nao. Nos ultimos tempos, temos tido mais possibilidade de uma maior diversidade nesse horizonte.
Mas historicamente, aqui nas americas especialmente, saoinstituicoes coloniais e depois o estado que tambem tem uma historia de imposicoes de violencia sobre suas populacoes.
Entao lembrar desses espacos por onde corre a memoria, praalem do que a gente planeja, é reconhecer tambem uma nocao de historianao linear e nao progressistas, da qual tambem fala o Walter Benjamin.
O que é extremamente importante em tempos de ascensao do facismo, como o tempo em que o Walter Benjamin escreveu. Nos tambem vivemos um tempo de ascensao da extrema direita pelo mundo que se baseia em nocoes de superioridade de uma determinada racionalidade, em um pensamento tecnocratico, e cultivar espacos onde a historia é vista de outro modo me parece fundamental.
E ai eu listo mais algumas perguntas pra gente:
Qual a importancia dos atores que geram arquivos e memorias?
Que tipo de memorias e historias queremos construir?
E ai nesse ponto acho importante pensar tambem no tipo de material do coletivo difusao e que agora vai organizado e digitalizado: sao formatos que nem sempre sao valorizados pela nossa area, por exemplo, os estudos de cinema.
Existe material bruto, existem programas de TV, e existem gravacoes de apresentacoes culturais. E esse materiais muitas vezes é considerado como menos relevante esteticamente. E acho importante que esse acervo esteja disponivelpra que a gente possa se perguntar
Quais os padroes esteticos desses registros?
Quais construcoespoeticas das pecas, entrevistas e apresentacoesregistradas?
Eu penso que essa iniciativa se insere junto a varias outras com um potencial de impacto muito grande pro questionamento da historia dos territoriosamazonicos e praconstrucao de novos imaginarios e politicas.
E eu acho muito interessante que essa iniciativa se coloque como complementar a outras iniciativas governamentais e privadas, porque aí existe a possibilidade de que variasacoesconstribuampra diversidade de politicas e materiais digitalizados e preservados.
E ai eu aproveito pra compartilhar com voces algumas outras iniciativas nesse sentido, que naosao necessariamente iniciativas de digitalizacao, mas que lidam com a divuglacao de materiais audiovisuais aqui da regiaoamazonica, e que se dividem em iniciativas governamentais, privadas, coletivas e pessoais
Temos aqui a plataforma territorio audiovisual, la do Peru, que tem o foco em producoescinematograficas realizadas em linguasindigenas e que faz um registro e ate mesmo disponibilizacaode variosconteudos, e ai eu destaco a documentacao dessas acoes na amazonia peruana: https://www.territorioaudiovisual.pe/
Arquivo de filmes apresentados no festival filmecortotambemla no Peru, onde muitos curta-metragensda amazonia peruana tambem podem ser vistos https://filmoteca.pucp.edu.pe/archivo/archivos-filmicos
Aqui no Amazonas eu lembro do projeto do nucleo de antropologia visual da UFAM, o Amazonia Audiovisual, que percorreu varios estados do norte tambem documentando a producao audiovisual da regiao e tem conteudos no seu canal no youtube
https://www.youtube.com/watch?v=dKy8HZ1r6o4
No Para, a cinemateca paraense tambem tem feito um trabalho de documentacao de filmes do estado
https://cinematecaparaense.org/
A minha dissertacao de mestrado tambem deu origem a um banco de dados especificamente sobre curtas-metragens contemporaneos aqui da amazonia, que eu disponibilizei num blog, com geolocalizacao dessas producoes
https://curtasamazonicos.wordpress.com/home/
E ai eu lembrei tambem de um dos meus primeiros contatos com documentacao audiovisual que foi o projeto Audiovisual na Amazonia, que eu participei quando era da graduacao, e que foi desenvolvido entre 2010 e 2014, mais ou menos,la na faculdade de comunicacao da UFPA. Nos tambem registramos centenas de curtas em diferentes generos que circularam em festivais dos 9 estados da Amazonia legal ali no inicio dos anos 2010 e foi uma das primeiras vezes eu eu tive contato com visualidades de outras partes da Amazonia e inclusive com as producoes do coletivo difusao. Eu lembro que quano eu conheci o Allan fiquei muito feliz porque as videodancas que eu vi ali em 2012 quando eu tava desenvolvendo esse trabalho tinham me marcado muito. E acho que essas imagens do coletivo difusaotambem me puxaram ate aqui, pra ter essa oportunidade de estar conversando com voces agora.
E assim como essas, varias outras iniciativas devem existir. Essa aqui nao é uma revisao exaustiva. Saoso algumas iniciativas mais antigas e mais recentes que eu lembrei. Depois da Aldir Blanc e agora da Paulo Gustavo, junto a iniciativas como festivais e producoes em si, iniciativas de circulacao e critica tambemestao surgindo e acho importante a gente ficar atento pra isso. No caso da digitalizacao, essa iniciativa do CPA é a unica que eu conheço ate agora na regiaoAmazonica, o que deve ser muito valorizado mas tambem questionado tendo em mente tanto a desconstrucao de um certo discurso de vazio que sempre nos assombra, quanto da construcao de um repertorio em rede relacionado a digitalizacao, conversao, documentacao, disponibilizacao e remix de conteudos audiovisuais, tanto no sentido metodologico quanto etico e politico.
Como podem se articular as iniciativas de documentacao e digitalizacao de acervos audiovisuais na Amazonia?
Claro que existem varias iniciativas, academicas e governamentais. O Brasil tem um plano nacional de preservacao audiovisual, tem a associacao brasileira de preservacao audiovisual e varias outras entidades relacionadas a esse tema que se articulam com outras no restante da America Latina. E as iniciativas amazonicastambem podem se articular a essas e outras iniciativas aqui nas Americas.
E pra ja ir me encaminhando pro final da minha fala, eu gostaria de falar dos desafios especificos relacionados a afro-diaspora, aos cinemas indigenas e a questoesecologicas aqui na Amazonia, que tem sido as minhas principais curiosidades de pesquisa no doutorado.
Eu comentei aqui sobre a importancia dessa acao de digitalizacao e futuramente de difusao de um acervo muito relevante pra regiaoamazonica como é o do coletivo difusao. Comentei tambem sobre a construcao de memorias por atores que naosao os atores historicamente autorizados a construir arquivos. E sobre a construcao e fabulacao de outras realidades e imaginarios pra nossa regiao.
E isso necessariamente passa pelo reconhecimento de uma historia colonial. O modo como esses arquivos se construiram historicamente e ate mesmo as possibilidades e limitacoes de atuacao de uma organizacao cultural como o coletivo difusao passam por essa historia e pela distribuicao de poder e infraestrutura que tornou a Amazonia o que ela é hoje. Uma historia deviolencias e abusos com humanos e nao humanos na qual os processos de racializacaoque relegaram as populacoesindigenas e afro-diasporicas escravizadas o papel de inferiores, e os nao-humanos como rios, florestas, plantas e espiritostambem ao status de objetos a serem apropriados e dominados.
É inviável pensar em um outro futuro sem passar por essas questoes.
E é inviavel lidar com os desafios do nosso tempo, como a ascensao da extrema direita e a emergenciaclimatica, sem passar por isso.
Mas o que arquivos audiovisuais tem a ver com colonialismo?
O que colonialismo tem a ver com crise climatica?
Acho que o primeiro ponto que filmes e producoes culturais podem promover é descentralizar as ciencias naturais como unicas capazes de lidar com a crise climatica. E descentralizar os fenomenosbiologicos como instancias separadas dos fenomenos sociais, politicos e esteticos.
Quando se fala de mudancaclimatica, se fala em nocoes como o antropoceno, a era do homem, a debatida era geologica onde as mudancascausadas pelos seres humanos foram tao profundas que mudaram a cara do planeta pra sempre. Tanto no possivel diagnostico dessa nova era geologica (que é negada, debatida, e reescrita a partir de muitas nocoes como capitaloceno e plantationceno) quando na avaliacao das suas consequencias, inicialmente ha a primazia da geologia e das cienciasatmosfericas e dos seus metodos de afericao.
Mas é inegavel que um marcador fundamental das mudancas causadas pelo homem no planeta foi o processo colonial promovido pela Europa.
Em um artigo de 2015, os geologos Simon e Maslin. Propoem inclusive enquanto marco geologico, a hipotese de que o antropoceno tivesse comecado em 1620, por conta das leituras que indicam uma possivel captura massiva de carbono desse periodo, hipoteticamente relacionada ao genocidio de grandes populacoes das americas que causaram a conversao de extensas areas de cultivo e manejo novamente em areas silvestres, que por sua vez teriam causado a captura massiva de carbono da atmosfera.
Sem falar da dispersao de diversos organismos pelo globo como fruto do comercio de pessoas escravizadas de africa, como a mandioca.
No estabelecimento desse sistema, como diz a teorica caribenha Sylvia Wynter, foi fundamental um sistema filosofico que colocava o homem europeu no topo de uma hierarquia e como unico representante da nocao de “homem”, confundida com a proprianocao de “humanidade”.
De acordo com Sylvia Wynter (266) as populacoes indigenas das Americas foram muito imporantes para criar o grande Outro das racializacoes europeias, que encontraria nos “Negros” o “referente por excelencia do Outro Humano `racialmente inferior`, com uma diversidade de outros povos colonizados de pele escura, todos classificados como `nativos`, agora sendo assimilados a sua categoria – todos eles como a corporificacao ostensiva dos nao-desenvolvidos e atrasados Outros”
Um sistema filosofico posto em pratica juridicamente e militarmente, mas tambem narrativamente em documentos e producoes culturais diversas, como cartas e tratados.
Desse modo, o proprio colonialismo é um fenomeno onde existe a inseparabilidade de aspectos sociais, historicos, biologicos e esteticos.
Para lidar com legado colonial e pensar em acoes decoloniais, a filosofa Brasileira Denise Ferreira Da Silva sugere um exercicio de visualizacao (imaginacao) para ultrapassar as onto-epistemologias eurocentricas e conectar os mecanismos simbolicos e economicos da racialidade de maneira anti-linear. Assim, a autora propoe romper a separabilidade nao apenas descrevendo eventos, mas se engajando com eles (86) o que evoca nao apenas o ato de descrever mas tambem o de criar junto com a friccao e justaposicao das entidades, o seu “emaranhamento”.
Assim, um trabalho de decolonizacao, de restauracao ou de cuidado pressupoe a necessidade tambem de re-imaginar e des-teorizar para gerar novos sentidos de intervencao. E necessario qeustionar ontologias e episstemologias que sao justamente a origem do problema (como a separacao entre Humanos e Natureza, a superioridade do homem branco europeu e a eficacia superior das Ciencias Naturais).
E é ai que entra a importancia das artes, da literatura, da oralidade e de outras producoes culturais como espacos de reimaginacao e reinvencao.
Iniciativas como a digitalizacao do acervo do Coletivo Difusao possibilitam que a gente veja as imagens e os contextos de producao delas tambem em relacao a essa historia.
E nos faz pensar tambem na preservacao e digitalizacao como parte importante dos circuitos mais recentes de producao de cinemas por parte de populacoes indigenas e afro-diasporicas na regiao amazonica, junto a necessidade de producao e exibicao, por exemplo.
Eu fico muito feliz de estar aqui agora pra dividir com voces algumas dessas questoes na esperanca de que a gente se mobilize juntos pra pensar nelas. E fico muito feliz que filmes e imagens facam parte dessa teia que nos da a oportunidade de estar aqui agora.
Crutzen, Paul J. “Geology of mankind.” Paul J. Crutzen: A pioneer on atmospheric chemistry and climate change in the Anthropocene (2016): 211-215.
Ferdinand, Malcom. Decolonial ecology: Thinking from the Caribbean world. John Wiley & Sons, 2021.
Ferreira da Silva, Denise. “Unpayable debt: Reading scenes of value against the arrow of time.” The Documenta 14 Reader (2022).
Guerin, Ayasha. “UNDERGROUND AND AT SEA: Oysters and Black Marine Entanglements in New York’s Zone-A.” Shima 13.2 (2019).
fer
Lewis, Simon L., and Mark A. Maslin. “Defining the anthropocene.” Nature 519.7542 (2015): 171-180.
Wynter, Sylvia. “Unsettling the coloniality of being/power/truth/freedom: Towards the human, after man, its overrepresentation—An argument.” CR: The new centennial review 3.3 (2003): 257-337.
